sábado, 4 de março de 2017

Já vou correndo qualquer coisinha

Ao poucos regresso à corrida como quem regressa a um lugar mágico. O sorriso que levo é cheio de felicidade, que dirão as pessoas ao verem-me correr com aquele sorriso parvo estampado na cara?
«Se algum dia alguém deixasse de me achar ridículo, eu entristecia ao conhecer-me, por esse sinal objectivo, em decadência mental.» Fernando Pessoa 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Qual é o objectivo de correr?

A long time ago in a galaxy far far away eu perguntei e respondi num certo maratona: Qual é o objectivo de correr? Nenhum, apenas quero continuar a correr. Não tenho outra finalidade além da de continuar a correr enquanto puder. Corro para viver. Não posso viver de outra maneira.
Agora chega a hora de analisar a dita pergunta e a resposta plural. E chega a hora porque o correr é muito pouco e o viver é de outra maneira, mais intenso. O querer continua com a mesma força, a intensidade da vida é que se alterou e o dia continua com 24 horas. 
A corrida estava a correr com o sono, havia duas hipóteses: ou não corria, ou não dormia. No princípio optei pela segunda, mas o facto de não dormir tinha outras repercussões: a presença não era total. Perdia eu. Cheguei à conclusão que após uma certa idade, dormir é obrigatório! A corrida ficou para trás: perdia eu? Nada! Faz-me falta, claro que faz, quero continuar a correr, claro que quero, mas a presença na vida, na minha e em outras, enche-me a alma.
Interessante: ao estar presente em outras vidas a minha presença na minha própria vida tem-se revelado mais presente. É isso. Eu estou-me mais presente, assim como um presente que dou todos os dias a mim mesmo. Uns sorrisos que se guardam no coração.
Mas como posso continuar a correr sem deixar de dormir?
Tenho que arranjar uma coisa destas:

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

VAMOS LÁ ENTÂO

Tenho medo de estar a fazer as coisas de maneira errada, de não dar a devida atenção aos pormenores, não estar completamente presente nos dias. Porque é tudo uma questão do dia, o que conta é o dia e a soma desses dias é que faz com que as dificuldades sejam ultrapassadas. Não há dias para passar tempo, todos os dias contam. Mais à frente olhamos para trás e percebemos que já passaram: no somatório vamos adorar todos os dias passados, no pormenor saberemos que houve dias bastante difíceis. O limite é sempre esse dia, o objectivo é preenchê-lo com presença, com existência, com vivência, com Dasein.

Nestes últimos meses têm sido difícil incluir a corrida na soma dos dias. Tenho que planear melhor as actividades extra, para lá conseguir encaixar a corrida. Posso viver sem corrida, mas não é a mesma coisa.

Hoje chegou a tão aguardada mochila: Mountain Runner Comp.

sábado, 31 de outubro de 2015

QUARENTA

Tenho a consciência que preparei a corrida bem. Apesar de ter ficado doente as duas últimas  semanas, sentia-me bem nos dias antecedentes à grande corrida. Mas a "coisa" não correu tão bem como o previsto, ou seja, não foi fácil. Apesar de tudo fiz os 40 quilómetros que se impunham (e mais um pouco, na verdade corri a distância da maratona).

Este é o meio-dia da vida, quando o sol toca o seu ponto mais alto no céu. Olhando para trás e fazendo um balanço de vida: foi o melhor ano de sempre, concretizei sonhos que já tinham passado e passei metas que só pensava atingir muito mais tarde na vida. Sinto-me melhor que nunca. Sem falta de humildade: sou melhor pessoa, mais homem, mais humano, mais ser. As mundivivências (mesmo assim: mundivivências) que me vão metamorfoseando e melhorando não são experienciadas sozinhas, antes saboreadas a par, o que permite que o pluck transformador penetra a alma ainda mais fundo. Mas não posso descansar à sombra daquilo que agora sou. A gente vai continuar. Afasto qualquer arrogância que possa ter-se apoderado de mim e sigo viagem: este será o melhor ano de sempre.

Parti por volta do meio-dia. Faz sentido. As pernas indicaram-me logo que as coisas não estavam muito bem. 30 kms, três semanas antes, tinham sido muito mais fáceis de fazer, apesar do treino ter sido na serra e o desnível positivo acumulado ter passado seguramente os 1000 m, foram mais rápidos. O saldo final da corrida foi 1h15m de atraso em relação ao tempo que tinha previsto fazer tudo nas calmas. Não tinha nenhum problema com o tempo, por mim se não pudesse ser em 4 horas, seria feito em 6, o que me preocupava era a Ana, a Camila e o Leonardo (a minha "support team") que estariam atrasados para uma outra actividade. Afinal a outra actividade era a minha festa de anos, toda a gente sabia da festa menos eu...

Adorei, mesmo os quilómetros mais difíceis, onde até fui atacado por cães. Foi brutal.




A Gente Vai Continuar
Jorge Palma
  
Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

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