quarta-feira, 21 de novembro de 2012

UTAX - CRÓNICA DE UMA PROVA NÃO ACABADA (Continuação)

"Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado." Ernest Hemingway, in O Velho e o Mar.
Abastecimento 4 - Foto de Paula Fonseca
Depois do chá quente e da alma renovada, amandei-me para o que faltava da prova na certeza que ainda ia demorar mais umas 8-9 horas. De qualquer maneira ia tranquilo porque estava mais de 3h à frente do fecho da prova e continuei sem nunca forçar o andamento. Em toda a prova só "forcei" um pouco numa descida técnica, antes do 2º abastecimento, porque era um single track e não queria prejudicar os companheiros que vinham atrás, numa altura em que ainda ia tudo muito compacto. 
No caminho deparei-me com o Carlos Fonseca que ia com algumas náuseas, alguma coisa que comeu e não lhe "caiu" bem. Colei-me. O Carlos bem tentou livrar-se de mim, dizendo para continuar, mas eu não o fiz. Primeiro porque não iria adiantar-me muito (não tinha disponibilidades físicas para muito mais), depois porque percebi logo que aquele enjoo era passageiro e como o Carlos é dos atletas mais experientes do pelotão era para mim vantajoso ter aquela companhia devido à minha tendência para o despiste (perder-me completamente) e o espaçamento cada vez maior entre atletas. Moralmente era o mínimo que eu podia fazer, afinal é através dos conselhos e dos planos de treinos que estão na página web do Carlos que eu oriento os meus. No fundo o Carlos é o meu treinador (ele é que não sabia...).
Lá fomos, um pouco mais à frente juntou-se a nós outro companheiro de quem não me lembro o nome, igualmente com bastante experiência, e que também tinha tido uma quebra de forças, mas igualmente recuperado.
Agora, mais do que um tipo que anda ali no meio dos montes a correr, era um ouvinte atento às histórias que aqueles dois iam contando, de trilhos que tinham feito, em anos diferentes, onde tiveram dificuldades, como foram as organizações, enfim, eu ia alheado da corrida e atento à conversa muito interessante. Em comum tínhamos feito o UTSM e tínhamos adorado. Em comum também o desejo de fazer o UTMB, o Carlos vai lá para o ano (há dois anos que se anda a candidatar), o outro companheiro ainda tem que ir a sorteio e eu nem sei quando poderei inscrever-me no sorteio mas a vontade é essa... Um ano destes.
Em trio lá chegamos ao abastecimento do km 52, eu aproveitei para vestir o corta-vento que trazia na mochila, o frio ia intensificando. A partir daqui abastecimentos de 10 em 10 km, isso queria dizer para mim, de duas em duas horas. O ritmo continuava perto dos 5 Km/h.
Continuamos em trio até ao cimo da serra onde fizemos um pequeno alto para ligar-mos os frontais, seriam por volta das 5h da tarde, 11h de prova, ajudada pelo nevoeiro a noite caia rapidamente. Juntaram-se a nós mais dois companheiros que também ligaram os frontais e a progressão continuou em quinteto. Já noite escura juntou-se ainda a nós um cão, o que fazia um cão sozinho no meio da serra numa noite de nevoeiro? perdido talvez, acompanhou-nos até encontrar outras pessoas (da organização) e lá escolheu ficar com elas, tinham muito melhor aspecto do que aqueles 5.
Última descida perigosa e em escorrega até ao posto de abastecimento do km 62.
Tinha havido uns comentários entre nós que talvez cancelassem a prova neste abastecimento devido ao nevoeiro, já tinham participado em provas canceladas devido a condições parecidas. Confesso que iria ficar um pouco chateado se chegasse ao abastecimento e me dissessem que a prova estava cancelada. Não aconteceu, no entanto não continuei a prova e fiquei por este abastecimento.
Cheguei, tirei o corta-vento e a mochila e fiz-me à canja. Desembrulhei o telemóvel e tentei mandar o sms da praxe, não consegui, os dedos não tinham sensibilidade, enviei em vez disso um "toque", para dizer que estava a caminho.
Comecei a aperceber-me de vários companheiros que tinham desistido, meia-dúzia, inclusive um que estava embrulhado na manta térmica, esperavam transporte que os levasse à meta. Mexeu comigo e lembrei-me do sucedido numa prova em Espanha (Cavalls del Vent) em que uma companheira sucumbiu ao frio.
Abasteci a mochila de água, comia umas batatas fritas e ia bebendo a uma canja quentinha que me soube divinamente bem. Entretanto o telefone toca, a conversa da elevada percentagem de atletas que já desistiram, do tempo frio, das condições... percebi que havia alguma preocupação do outro lado.
-Queres que desista? - Na verdade quando formulei a pergunta é porque já tinha desistido...
-?- Silêncio do outro lado. Voltei a perguntar, penso talvez que queria uma segunda opinião acerca do que inconscientemente me atormentava o espírito. A segunda opinião veio em forma de pergunta:
-Estás a divertir-te?
-Não, já não estou.- E era, estava com frio, saturado de chuva e de lama, de pisos escorregadios e perigosos. Não me estava a divertir e a corrida deve ser isso: diversão.
-Então?
-Ok, então vou ficar por aqui.
Acabei a canja, informei a organização da minha desistência, ainda bebi dois cafés quentinhos e vi partir o grupeto, depois apanhei boleia até à meta, onde estava a Ana à minha espera.
Entre a canja o café e umas conversas, ainda tive tempo para hesitar a desistência, mas a razão agora já falava e aliada ao frio que sentia a desistência fazia sentido apesar de me sentir desconfortável com isso, e ainda sinto, agora à distância reconheço que foi uma opção sensata. O grupeto ainda demorou cerca de 5h a chegar à meta e embora tenha a sensação que fisicamente estaria em condições para acompanhar o grupo, não sei como iria conseguir ultrapassar o frio. A verdade é esta: estou bem e pronto para outra e é isso que importa. Para o ano haverá mais UTAX e a mim só me resta estar presente na partida e acabar aquilo...
Desta vez fui destruído pelo trilho, para o ano vamos ver como será...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

UTAX - CRÓNICA DE UMA PROVA NÃO ACABADA

A verdade é que não me apercebi para o que ia. Comecei de noite a correr, passei o dia cinzento a correr e acabei de correr já noite. Correr que é como quem diz...
A coisa correu mal logo na viagem para a Lousã. Perdi-me, ou melhor, não encontrei o caminho certo e fui dar uma volta muito maior. Com mais de duas horas de atraso em relação ao que eu tinha previsto, lá cheguei à pousada da Juventude da Lousã para levantar o meu dorsal e mostrar o equipamento obrigatório. Depois fui procurar algum sítio para comer, os restaurantes já estavam fechado, mas lá consegui encostar-me ao balcão de um café e comer uma tosta de atum, pedi outra de ovo para ser o pequeno almoço.
Aquela hora já não fui para o solo duro e optei por descansar, as poucas horas que faltavam, no carro.
Seis horas da manhã e lá parti na cauda do pelotão para enfrentar os 82Km do UTAX. Frontais ligados e enfrentar o frio e a chuva que não nos largou o dia todo e o sol só assomou por breves instantes. Quando o dia começou a clarear tínhamos para enfrentar uma levada perigosa, se houvesse uma queda a coisa não ia ficar pelos arranhões.
Primeiro abastecimento, por volta dos 7,5 Km e eu com 1h30 de prova. A fazer uma média de 5Km/h. Segundo abastecimento, 4h de prova, muitas subidas, muitas descidas e pouca corrida. No segundo abastecimento já me tinha apercebido de uma coisa: este percurso é espectacular mas não é para correr. E foi o que eu não gostei na prova: correr fácil ou duro foram poucas vezes, não é esta a ideia que tenho de trail running, mas pronto, as paisagens, os próprios trilhos muito técnicos eram de uma beleza enorme, pena era que a chuva, o vento e o nevoeiro não deixavam ver toda a beleza daquelas serras.
Por esta altura, com frio, chuva e vento, sem possibilidade de aquecer a correr, tinha tomado mentalmente a decisão de não voltar a fazer esta prova, como disse, a minha noção de correr por trilhos, ainda que seja uma corrida dura, não é subir serra e descer serra, onde a corrida propriamente dita é pouca para um tipo como eu, poderia chamar aquilo prova aventura ou outra coisa qualquer, mas trail running... O que poderiam fazer: manter a altimetria e esticar a prova até aos 100 Km, porque o que achei mal foram as sucessivas paredes, quer a subir quer a descer, e poucos trilhos para correr. Claro que estou a dar uma opinião, e para um tipo como eu, com a minha capacidade física, estas paredes não me deixaram correr muito, e foi este o ponto que não gostei na prova. É a minha opinião fortemente influenciada pelo frio e pelas condições climatéricas que enfrentava, nem sei e num dia ameno ria pensar a mesma coisa.
Voltemos à corrida. Cheguei ao 3º posto de abastecimento já com 6h30 de corrida, comi o que havia, enchi  o o reservatório de água, enviei a sms do costume a dar o ponto da situação e a fazer a previsão de "2h e estou aí". O sol apareceu por esta altura, infelizmente por pouco tempo. Pus-me a caminho e uma pequena conversa com um companheiro, mais confiante que me dizia que só iríamos precisar de 1h30 para chegar ao próximo abastecimento. As minhas previsões é que estavam certas.
Percurso igual, subidas que só conseguia enfrentar a andar e descidas que eram mais na base do sku. Gostei e diverti-me bastante, apesar de cheio de lama, molhado e com frio.
Cheguei ao abastecimento principal, onde esperava encontrar a Ana e uma canja quentinha. A recepção da Ana aqueceu-me a alma, mas a sopa para me aquecer o estômago é que já não tive direito, atrasei-me, no entanto ainda a tempo de um chá e de uma sandes de presunto que me soube a pouco.
Ia mais de três horas à frente do fecho do percurso, tranquilo.
Aqui poderíamos trocar de roupa. A organização tinha feito chegar uns sacos com roupa seca para quem quisesse. Eu não troquei de roupa, foi um erro táctico. Porque não troquei?
Não tenho o melhor equipamento para estas condições de prova, nem sequer o equipamento essencial. Tenho o equipamento possível que vou tentado melhorar, experimentar e aprumar de corrida para corrida. No meio destas experiências de melhoramento, há as que são completamente falhadas. Foi o caso do reservatório de água, tipo camelbak, que levei. Não é prático e eu já o sabia, mas na prova confirmei que além de não ser prático não é eficaz. Depois de São Mamede, e pelas feridas que a mochila me deixou, percebi que tinha de adquirir uma mochila nova, claro que adquirir uma mochila "daquelas" não é para já opção, e por isso adquiri uma mochila extended 0-11 da quechua, que experimentei e treinei convenientemente, uma clara evolução no meu equipamento. No entanto não tinha adaptação para levar bidons na alça da frente da mochila. São mais práticos nos abastecimentos, úteis na distribuição do peso da mochila, e eficazes em termos de hidratação e controlo da reserva.
No que se refere à roupa de corrida, eu tenho a básica e claramente insuficiente para passar tanto tempo sob aquelas condições.
Acho que mesmo que trocasse de roupa, pouco tempo depois estaria nas mesmas condições, pelo que não me adiantaria de muito.
(Continua...)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

VOLTAR A 10 DE NOVEMBRO

Vamos lá ver, ainda estou indeciso porque prova optar (acho que não, mas ainda não me inscrevi...), ainda não sei a que horas do dia ou da noite vou poder treinar (nem que seja à uma da tarde...), mas tenho que decidir isto: dia 10 de Novembro volto a fazer uma prova de corrida: Está decidido!

terça-feira, 29 de maio de 2012

(3) ULTRA-TRAIL DA SERRA DE SÃO MAMEDE

Do PAC9 informam que se tinham enganado e o dorsal X já tinha passado. Pelas minhas contas, mais 10-15 minutos e o Joaquim está ai. Boa. Vou até à meta que está mais um atleta a chegar com algumas dificuldades. Entretanto a Ana também chegou e digo-lhe como estão a correr as coisas: «O Joaquim deve estar a chegar.»  Vamos até à barraquinha dos cafés para beber mais um. Daqui vejo ao fundo mais um corredor a chegar. Reconheço.
«Força Joaquim, conseguiste!»
O corpo pende um pouco para o lado esquerdo. Não paro de o incentivar. Estou eu próprio contente e orgulhoso de conhecer este homem, paraquedista, que já ultrapassou os 60 anos de idade e pela primeira vez está neste desafio de correr os 100 Kms e logo nesta corrida de montanha dura que se farta. E vai conseguir.
Fui com ele, corri novamente os últimos 400 metros, não era suposto mas a emoção fez-me agir assim. Ia ao lado do Joaquim a fazer a festa, deitando os foguetes e apanhando as canas. O Joaquim ainda não estava consciente do que estava prestes a conseguir. Recta da meta, adianto-me um pouco para tirar uma foto com o telemóvel, que como era de noite não ficou muito bem. Aplausos, indico ao Joaquim a mesa das batatas fritas, para comer e se hidratar, aproveito para comer mais algumas, as massagens e os banhos, mas o que o Joaquim queria era ir deitar-se.
Grande Joaquim, novamente dirijo-lhe os meus parabéns. 
Vou à procura da Ana para irmos jantar, na companhia da Paula e da família Almeida, um jantar muito bom. Boa companhia e a comida estava excelente.
Depois voltamos para a meta, ainda queria ver o Melo chegar.
O Melo vinha com um pequeno problema no joelho e ainda não tinha chegado ao PAC9, estava na descida anterior.
Ainda vejo a chegada da Analice, grande atleta e mulher de fibra, deu para rir um pouco, depois do nervosismo que tinha sido os últimos 20 minutos.
Chego à conclusão que não vai ser possível esperar pelo Melo. Estou cansado, a Ana também está cansada, ainda temos uma viagem para fazer e compromissos para cumprir na manhã de domingo.
Lanço boas vibrações para o Melo, sei que ele vai conseguir. E conseguiu. Grande capacidade de sofrimento que aquele Mariense tem.
Inicio a viagem de regresso, pelo caminho vou recordando os momentos da prova.
A passagem por Alegrete, ainda de noite, mas que deu para perceber que é uma Freguesia muito bonita, ainda hei-de lá passar outro dia, com mais calma para olhar tudo muito bem e sentir a sua história.
A passagem pela barragem e pelo pescador que lá no meio flutuava no seu banco/barco.
Os cavalos lindos e a placa de boas vindas ao Gavião. Que bem que soube ler aquilo.
Foto de Isabel Almeida
A subida para o Castelo de Marvão, e quando pensava que era o assalto final, nova descida para recomeçar tudo de novo. O Castelo e a Vila, maravilhoso. O "pequeno-alto" com direito a namoro e tratamento VIP.
A simpatia das pessoas com quem me cruzei.
O ter conhecido o Zé Maria na descida de Marvão (antes só o conhecia pelos blogs).
O Bóris, cachorro ultra-maratonista que seguramente fez mais de 200Kms.
E tantas outras recordações que ficam na memória geral do UTSM e me fizeram chegar ao fim e dizer: Adorei!
Quanto à organização: não sou especialista para fazer análises, mas para mim estiveram bem. Voltava a repetir. Certamente que haverá aspectos a melhorar, deixo isso para os entendidos na matéria, eu só tenho de agradecer a oportunidade que me deram de poder fazer estes trilhos, o apoio e todo o trabalho que tiveram para "pôr de pé" este UTSM. Bem-haja.
Agradeço também a todas as pessoas com as quais me fui cruzando e me foram incentivando no caminho, em especial às simpáticas Isabel, Paula e Vitória. Bem-haja.
E à minha amiga Ana: fazes-me sentir importante. Bem-haja.
Agora continuo a recuperação, os joelhos ainda se queixam um pouquinho. Até me deu assim uma coisa para ir à Freita, mas se calhar este ano ainda não. Vou é começando a pensar na Lagoa de Óbidos à noite...
Mas até lá, bons trilhos e boas corridas.

sábado, 26 de maio de 2012

(2) ULTRA-TRAIL DA SERRA DE SÃO MAMEDE

Isto de correr 100 Km numa montanha, não é coisa que comece no "tiro" de partida, começa sempre muito tempo antes com o desejo da corrida e de nos pôr-nos à prova numa corrida de ultra-resistência, pelo meio tem as corridas designadas por treino onde vamos aumentando a nossa resistência física e acima de tudo mental. Penso que esta é a minha maior força: a resistência mental. Apesar do nervosismo que aparece quando estou a apertar as sapatilhas com nós duplos, a espalhar vaselina nas partes mais intimas para as queimaduras de fricção não aparecerem (pelo menos a maior parte delas), tenho a confiança que se nada de anormal acontecer, uma queda ou uma lesão, vou chegar ao final vitorioso. Antes das 2h da manhã daquele sábado 19, o nervosismo aliado ao facto de normalmente não dormir antes dessa hora, não me tinha deixado "pregar olho" e às 2h30 já estava levantado ao som da chuva que caía lá fora. Preparei-me e lá fui para o estádio ter com aqueles tipos todos que estavam dispostos a partir às 4h daquela manhã chuvosa para correrem durante muitas horas seguidas perfazendo a distância anunciada de 100Km pelo meio da Montanha de São Mamede. 
Lá encontrei alguns companheiros já conhecidos. O António, a Isabel e a Vitória que já os tinha encontrado no jantar de véspera. O Joaquim, que estava mais nervoso que eu. O Melo, que como veio dos Açores já tinha uma aventura aérea para contar. O Zé Ramos, companheiro de uma meia-dúzia de treinos (não dá para mais que ele está num outro nível de competição - dá para o acompanhar quando ele faz uns treinos mais lentos e de recuperação, eu aproveito e faço treinos mais rápidos). E mais umas caras que reconhecia dos trilhos do Almourol.
Zona de verificação de material, que dá ares de zona de embarque, com os familiares a despedirem-se dos ultras de uma maneira que parece a despedida de um batalhão prestes a embarcar para uma zona de guerra. Amontoado de gente, com mochilas e frontais, prontos a enfrentar esta dura empreitada, confiantes, nervosos, apreensivos com o tempo que se faz sentir.
Foto de Isabel Almeida
4h da manhã. Partimos, com a chuva a fazer a sua aparência e os frontais a iluminar a estrada. Mesmo àquela hora da manhã, havia pessoas (gente maluca) a ver estes tipos a correr. Noite, com chuva e frio, os primeiros quilómetros são de aquecimento, por entre a chuva e o nevoeiro prossigo devagar, até porque o meu frontal, um baratinho da Berg, não tem luz de nevoeiro. No entanto, fez bem a sua função, ainda tive receio que não aguentasse a chuva, pelo preço que foi..., mas o frontal nunca mostrou fraqueza e cumpriu sempre bem a sua parte, iluminando bem e sempre muito confortável. 
O dia foi amanhecendo, o nevoeiro ia-se mantendo dando um ar sinistro ao acontecimento. Nisto passaram 3h20 de corrida e... perdi-me. Não foi assim perder de não saber o norte, é mesmo só para aqui dizer que me perdi, porque já me afastei mais do trilho noutras ocasiões em que tive algumas coisas para fazer... (as reticências é para não ter que dizer que coisas foram... levo sempre papel-higiénico, é leve e pode fazer muita falta...). Enfim, perdi-me mais pelo facto de estar a seguir os companheiros da frente em vez de ir atento às fitas sinalizadoras, não foi grave, foram uns 20 metros na zona imediatamente antes da subida até às antenas, mas foi o suficiente para abrir a pestana e estar mais atento ao percurso daí para a frente. Ainda houve algumas hesitações, se estaria no caminho certo, mas foi mais por causa do nevoeiro intenso do que da sinalização do percurso. Na verdade só viria a perder-me outra vez (no mesmo nível de perdido, 10 metros), quando já levava mais de 13h de corrida e já ter passado o PAC9. Foram só uns 10 metros, mas foi um novo aviso para abrir a pestana e aumentar a atenção, que com o cansaço acumulado, já não era a melhor. Passei inclusive uma seta no chão para virar à esquerda. Ia completamente sozinho e comecei a gritar comigo: «Estás cego? No que é que ias a pensar? Como é que não viste isto? Depois diz que o percurso está mal marcado...» Foi algo do género, se alguém me viu ali, sozinho e a falar alto, deve ter pensado: "já deu o tilt." Desta vez fiz um check-up: "Estás bem Ricardo? Tens te hidratado? Alimentado? Está tudo ok, mas se calhar está na altura de mais um gel." E lá consumi mais um gel, numa altura em que comecei mais uma íngreme subida que parecia não ter fim. A meio da subida um casal de Espanhóis esperavam os atletas para lhes transmitir ânimo, ainda me ofereceram água e umas barras energéticas. Agradeci, mas não necessitava. «Umas pernas novas?» pergunta-me o simpático "hermano". «Isso é que era!!!» respondi. Ainda dá para rir, despedi-me, agradeci novamente a simpatia e lá continuei a subida.
«Gosto muito de vocês, só disse aquilo para fazer conversa. Vá, prossigam que estão a ir muito bem. Adoro-vos!» Falei eu com as minhas pernas, não tivessem elas ficado ofendidas com a conversa com o casal espanhol. Aprendi esta técnica, de ir falando com as diversas partes do corpo, no livro "Um desejo chamado 100Kms", de Manuel Martins. E dá resultado, pode parecer um pouco insano ir a correr e a falar sozinho, mas comigo resulta, sinto-me bem e as pernas agradecem.
A minha corrida teve três partes distintas: a primeira até ao Castelo de Marvão, aos 58Kms onde eu queria chegar o mais rápido possível, no entanto sem nunca forçar o andamento; a segunda, a partir daí e até, mais ou menos, ao quilómetro 80, onde ia ao sabor do vento e da maré; e a terceira, desde o quilómetros 80 até à meta, onde a expressão "aguenta-te sempre" começou a fazer-se sentir em toda a sua plenitude de sofrimento e superação.
Foto de Marta Carinhas
Depois de ter chegado à meta e de ter sido recebido carinhosamente, fui comer umas batatas fritas, beber mais uma coca-cola e de seguida desloquei-me até às massagens (maravilhoso, agradeço Sr. fisioterapeuta, as minhas pernas ficaram logo com outro ânimo e no Domingo já estavam quase novas, só os joelhos é que ainda nem por isso), após as massagens comecei a sentir frio e a tremer, tomei banho e agasalhei-me. Fiquei por ali à espera dos atletas e da Ana, que teve de fazer 300Kms a mais (de carro). Não  podia ficar parado muito tempo no mesmo sítio, as pernas não gostavam disso, então, entre a mesa das batatas fritas (comi muitas, muitas mesmo, com a desculpa do sal e tal é a desidratação...), a meta (onde ia aplaudindo alguns companheiros que chegavam) e a barraquinha dos cafés (onde eu bebi uns 3 e podia ver e aplaudir os atletas que passavam para os últimos 400m), passei as horas seguintes.
Havia três ultras ainda em prova que eu fazia questão de ver chegar à meta. O António, o Joaquim e o Octávio. Com alguma tristeza da minha parte, só vi um chegar. São coisas que acontecem e que nos fogem do controlo, paciência.
De novo junto à barraquinha (era um atrelado) dos cafés, esperava pelo António que devia estar mesmo a chegar... e ele chegou, eu é que não o vi passar, quando voltei às batatas fritas por estranhar a demora, dei com o António... já tinha cortado a meta. Fiquei triste por não ter visto, mas o importante é que chegou bem.
Passado pouco tempo, que não sei quantificar, vou ao secretariado para tentar calcular quanto tempo mais demoraria o Joaquim. As informações não eram animadoras: no PAC8 passou há mais de 5h e ainda não chegou ao PAC9... Não pode ser, é estranho, algo se passou... A menina simpática do secretariado telefona para o PAC9 à procura do dorsal X: «Não, ainda não passou.» resposta do PAC9. Estranho, muito estranho, vou buscar o telemóvel e dirijo-me novamente ao secretariado para confirmar se o número de telefone que tenho do Joaquim é o que ele deixou na organização. No preciso momento em que ligam do PAC9 a dar mais informações sobre o dorsal X.
(Continua)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

(1) ULTRA-TRAIL DA SERRA DE SÃO MAMEDE

«Só faltam 3 quilómetros e esta é a última subida, depois é sempre a descer até à meta!» E lá me "amandei" com gosto para a última subida, não gostei foi de ter virado costas para a cidade de Portalegre, pelo meu sentido de orientação estava a afastar-me e não a aproximar-me da meta. Passo económico e chego ao cimo da rampa, onde um tipo andava a treinar motocross, corro um pouco a direito e nova rampa, desta feita não muito longa, nem sei se poderia ser considerada rampa ou subida em comparação ao que já tinha passado, e eis que começo a descer... «Espera aí, o que é aquilo?» nova subida, dura,  então aquela não era a última? Parece que não, bem, o que tem de ser tem muita força e «vamos lá, catano!», "amandei-me" para a nova subida com garras. Nesta altura já ia a aguentar-me como podia, as reservas há muito que tinham sido gastas, as forças não passavam de uma recordação boa que tinha, agora era na raça que continuava a deslocar-me: "a direcção é mais importante que a velocidade" e era nisto que ia pensando enquanto pedia aos meus joelhos mais um pouco. Ao cimo da subida encontrei umas fãs animadas e ruidosas, como agradecimento do apoio ensaiei uma corrida até ao topo da "curva da morte", mereci uns aplausos e um "like" nas minhas meias personalizadas, cheias de magia e vibrações positivas que me ajudaram a percorrer estes trilhos e os tornaram muito mais fáceis.
Agora já descia de novo em direcção a Portalegre, mais uma viragem à esquerda e de novo a informação da quilometragem que faltava: «Faltam 3 quilómetros!»
A corrida continuou por entre bairros e ruas alcatroadas até que ao fim de uns 3 quilómetros vejo no chão pintado a branco uma seta com a indicação «Falta 1 Km», e eu pensei: «Está quase, só falta 1 quilómetro.» Pensei mal, sei agora que a seta indicava o sítio para onde ficaria a faltar o tal último quilómetro, os meios de medição ficaram um pouco avariados nesta última parte. Sigo monte abaixo, um muro para saltar quando as forças já não existem e por sorte não me espalhei, e até à meta no quilómetro mais comprido das fitas métricas e cumulativamente (a meu ver, claro) o quilómetro mais mal marcado de todo o UTSM. Depois de três ou quatro hesitações neste último percurso lá chego ao estádio, «agora é que só faltam 400 metros», e vou já saboreando esta vitória, emoção à flor-da-pele, consegui completar 100 km, estes por montanha num sobe e desce duro. Agradeço aos meus joelhos, a todas as outras articulações, às pernas e a todos os outros músculos. Faltam 200 metros. Diverti-me, suei, transpirei; tenho dores no corpo todo, sinto os pés feridos e as costas a arder das chagas da mochila. Olho para o céu, a lua nova ainda não aparece, agradeço ao universo ter-me proporcionado este momento. Nesta altura, mais que em qualquer outra, percebo porque me meto nisto, o sofrimento é passageiro, este orgulho que sinto, esta vanglória é mais que compensador. Recta da meta, faltam 100 metros, tiro o lenço para te sentir. Aplaudem, chamam pelo meu nome. Pórtico da meta. Levanto os braços: consegui! Não é que alguma vez tivesse duvidado, mas numa prova destas nunca se sabe e agora é real: Cheguei, está feito!
(Continua)

segunda-feira, 21 de maio de 2012

UTSM - MAIS DE 100KM DE DUREZA

"Não me interessa vir a ser o homem mais rico no cemitério... Ir à noite para a cama dizendo a mim próprio que fiz algo de maravilhoso... é isso que me interessa." Steve Jobs
Esta corrida foi um exagero: adorei! Chegar ao fim nunca foi uma dúvida, bastava para isso não me lesionar. Foi duro, mas foram mais de 100Km fantásticos, foi algo de maravilhoso. As dores já estão a desaparecer, as feridas já têm crosta e estão a curar-se e hei-de aqui voltar a contar como foram aquelas quase 16 horas.
No PAC9 - Convento da Provença, a ganhar força para os últimos 12 quilómetros. E que duros foram, tanto a nível físico como a nível mental, e não havia necessidade...
Boa recuperação e parabéns a todos.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

UTSM - PREVISÃO

"A arte da previsão consiste em antecipar o que acontecerá e depois explicar o porque não aconteceu." Winston Churchill
O dia promete apresentar-se bom para a prática de corrida: vento fraco, com o céu pouco nublado e há a previsão de aguaceiros para a tarde, a temperatura máxima não deve ultrapassar os 18ºC.
O nascer do sol será às 6h15m (quando já tiver umas 2h15m de corrida) e o pôr-do-sol será às 20h40m (espero já ter tomado banho nesta altura). Quando partirmos a Lua ainda estará na sua fase decrescente e espero chegar à meta antes da Lua Nova.
A mochila, o equipamento, o material obrigatório e mais algum, já estão preparados (falta agora montar tudo); mais um saquinho de reserva para colocar no PAC 6, ainda não sei muito bem com o quê, mas talvez uma toalha, sabão e um equipamento de reserva.

O objectivo mesmo é aguentar o que tiver de aguentar para chegar ao fim.
Agora as borboletas na barriga já esperam pelas 4h de dia 19 e esta é a previsão do que se vai passar comigo no corrida:
No site do UTSM estará disponível as passagens pelos PAC em tempo real.
Falta só mais uma corrida para estes 100 quilómetros.

terça-feira, 8 de maio de 2012

100 KM DE S. MAMEDE - PONTO DA SITUAÇÃO

A coisa vai doer um pouco mais, mas os objectivos mantêm-se: chegar ao fim. E vai doer mais um pouco porque já "faltei" a alguns treinos, dois dos quais longos. Nada de dramático, até porque a parte mental está preparada, a parte física vai ficando aos poucos. O pior é a logística que ainda não está completamente preparada, há uns aspectos importantes na viagem que ainda não estão definidos, isto de a corrida começar às 4h da manhã não me parece muito bem, mas certamente que deve haver um motivo qualquer para ser assim.
Até lá vai crescendo este nervoso miudinho, estas borboletas na barriga.
Dia 19 há este electrocardiograma para fazer.
Até lá, boas corridas.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

100K DE S. MAMEDE

Começo a preparar-me, especificamente, para os 100 kms da Serra de S. Mamede (UTSM), para já é a parte psicológica e de logística que mais atenção dou, no que toca às corridas de preparação estou a continuar com o plano de treino que usei para os trilhos de Almourol e só adicionar mais umas corridas em montanha, que a tenho mesmo à porta de casa.
Não consigo fazer nenhuma antevisão objectiva do tempo que vou demorar a correr a montanha, mas vou apontar para um tempo superior a 15h, sendo que tenho até 24h para terminar a prova.
De qualquer maneira o que agora tenho para planear é a hidratação e alimentação na corrida, conseguir articular muito bem com os pontos de apoio que a organização disponibiliza. Esta é uma parte importante que não posso descuidar e é por aqui que reside metade do êxito ou do fracasso.
Entretanto hoje não fui correr, estava previsto a corrida, mas optei por fazer pausa. A corrida continua a ser uma paixão e não uma obrigatoriedade, por isso, e até para marcar (de mim para mim) posição quanto a isso, hoje o dia foi de folga...
Amanhã voltarei às corridas com todo o entusiasmo.
Boas corridas.

sábado, 7 de abril de 2012

03 TRILHOS DO ALMOUROL

"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê." Platão
A táctica para atacar estes trilhos era a seguinte: Nunca forçar o andamento e nas subidas com mais inclinação "pôr a passo". Havia também a intenção de ir sempre acompanhado para não me perder.
Apesar de a prova estar marcada de forma irrepreensível, sei que me perco facilmente por causa do deslumbre. Se consigo perder-me a correr por trilhos que conheço bem e que passo por eles em vários treinos (isto não é para todos) com mais facilidade me perco em trilhos desconhecidos. A verdade é que me distraio com a paisagem, com um amontoado de pedras onde visualiso obras de arte majestosas, com um coelho que passa ao fundo (e com coelhos tenho uma história muito engraçada e curiosa para contar), com o barulho de um ribeiro a correr e um esquilo que pára para me ver passar (aplaudir-me, imagino eu), enfim, a minha atenção dispersa-se e deixo de estar concentrado no caminho para onde vou.
E foi sempre isto que procurei fazer: seguir os companheiros e acima de tudo, nunca forçar o andamento. Os primeiros 40 minutos foram muito lentos, trilhos que não davam para ultrapassagens, muitos atletas no trilho e era inevitável andar mesmo em sítios que normalmente não seria necessário, mas com maior ou menor lentidão lá chegamos à barragem de Castelo de Bode para o primeiro abastecimento e a grande surpresa: a minha equipa de apoio estava lá à minha espera e no segundo abastecimento e no Castelo de Almourol e no abastecimento de Tancos. Este apoio é melhor que todas as barras energéticas que poderia ingerir.
Foto de Lina Branco Batista
A corrida lá se fez, passamos a ponte militar sobre o Nabão, dei um trailho, fui ao Castelo, corri, andei, senti-me livre, feliz e cheguei ao fim com pena da corrida ter acabado, mas com enorme alegria.
Pouco depois do último abastecimento forcei o andamento, estava com energia suficiente e "vamos testar a minha forma". O muro, nesta maratona trail nunca apareceu, o que me faz pensar que os treinos têm sido bons.
Ainda tive tempo de andar uns metros perdidos (estava sozinho...) e depois entrar no pavilhão e ficar desconfiado: "Já nos balneários? Será que eu passei a meta e nem sequer notei?" Mas não, a meta estava mesmo dentro do pavilhão. Passo o pórtico, 5h07m oferecem-me uma lembrança de finisher e procuro as minhas Tágides para oferecer as flores que tive tempo de apanhar nos últimos quilómetros. Fantástico.
Agora vou começar a correr para os 100Km da Serra de S. Mamede. Sei o que vou ter de fazer, haja pernas para isso.
Até lá, bons trilhos.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

02 TRILHOS DO ALMOUROL

No domingo passado estive presente na partida dos Trilhos do Almourol. Era a corrida que eu tencionava fazer desde a primeira edição e que, por vários motivos, ficou sempre adiada e nunca pude estar presente. Foi nesta 3ª edição que tive o prazer de ouvir o "tiro" de partida.
Foto de João Catalão
Parti com a confiança de estar preparado para chegar ao fim, mas sabe-se que nunca é certo. Procurei sempre apreciar a corrida e consegui plenamente: Adorei. Parti da Aldeia do Mato para dar o meu melhor nesta que foi a minha primeira prova em trilhos, apesar de ter corrido, desde sempre, por trilhos montanhosos e "caminhos de cabras", que eu me recorde, nunca fiz uma prova deste género. Fui um estreante, não tenho falta de experiência em correr neste tipo de terreno, mas tenho, nitidamente, falta de experiência em participar nestas corridas organizadas, de qualquer maneira tenho uma boa recordação para contar.
O objectivo deste corrida ia ser, claro, chegar ao fim em boas condições para começar logo a pensar na próxima (que já está pensada: UT da Serra de S. Mamede). Mas por agora estou ainda a saborear o Almourol, volto para contar como foi a corrida, para já quero dar os parabéns à organização e deixar aqui o meu bem-haja por me terem proporcionado 5 horas fantásticas.
Boas corridas.

domingo, 18 de março de 2012

01 TRILHOS DO ALMOUROL

Depois destes meses todos sem escrever aqui nada... 
No próximo dia 1 espero estar na partida para os Trilhos do Almourol, prova que quero fazer desde a primeira edição e que, por vários motivos, nunca pude estar presente. Será este ano, se Deus quiser.
um logotipo muito interessante
A condição física que eu me vou apresentar para os anunciados 42Km é a possível. Tenho ando a correr bem, no entanto os "longões" é coisa que não tenho conseguido "meter" nas pernas: desde a Maratona do Porto que não há treinos longos dignos desse nome. De qualquer maneira acho que a minha condição física é mais que suficiente para acabar a prova a rondar as 5h, e será um bom teste pra ver se me meto numa de 100 já em maio...
Até lá espero actualizar o blog com mais frequência -os meus fãs assim o exigem-.
Boas corridas.