quarta-feira, 21 de novembro de 2012

UTAX - CRÓNICA DE UMA PROVA NÃO ACABADA (Continuação)

"Mas o homem não foi feito para a derrota. Um homem pode ser destruído, mas não derrotado." Ernest Hemingway, in O Velho e o Mar.
Abastecimento 4 - Foto de Paula Fonseca
Depois do chá quente e da alma renovada, amandei-me para o que faltava da prova na certeza que ainda ia demorar mais umas 8-9 horas. De qualquer maneira ia tranquilo porque estava mais de 3h à frente do fecho da prova e continuei sem nunca forçar o andamento. Em toda a prova só "forcei" um pouco numa descida técnica, antes do 2º abastecimento, porque era um single track e não queria prejudicar os companheiros que vinham atrás, numa altura em que ainda ia tudo muito compacto. 
No caminho deparei-me com o Carlos Fonseca que ia com algumas náuseas, alguma coisa que comeu e não lhe "caiu" bem. Colei-me. O Carlos bem tentou livrar-se de mim, dizendo para continuar, mas eu não o fiz. Primeiro porque não iria adiantar-me muito (não tinha disponibilidades físicas para muito mais), depois porque percebi logo que aquele enjoo era passageiro e como o Carlos é dos atletas mais experientes do pelotão era para mim vantajoso ter aquela companhia devido à minha tendência para o despiste (perder-me completamente) e o espaçamento cada vez maior entre atletas. Moralmente era o mínimo que eu podia fazer, afinal é através dos conselhos e dos planos de treinos que estão na página web do Carlos que eu oriento os meus. No fundo o Carlos é o meu treinador (ele é que não sabia...).
Lá fomos, um pouco mais à frente juntou-se a nós outro companheiro de quem não me lembro o nome, igualmente com bastante experiência, e que também tinha tido uma quebra de forças, mas igualmente recuperado.
Agora, mais do que um tipo que anda ali no meio dos montes a correr, era um ouvinte atento às histórias que aqueles dois iam contando, de trilhos que tinham feito, em anos diferentes, onde tiveram dificuldades, como foram as organizações, enfim, eu ia alheado da corrida e atento à conversa muito interessante. Em comum tínhamos feito o UTSM e tínhamos adorado. Em comum também o desejo de fazer o UTMB, o Carlos vai lá para o ano (há dois anos que se anda a candidatar), o outro companheiro ainda tem que ir a sorteio e eu nem sei quando poderei inscrever-me no sorteio mas a vontade é essa... Um ano destes.
Em trio lá chegamos ao abastecimento do km 52, eu aproveitei para vestir o corta-vento que trazia na mochila, o frio ia intensificando. A partir daqui abastecimentos de 10 em 10 km, isso queria dizer para mim, de duas em duas horas. O ritmo continuava perto dos 5 Km/h.
Continuamos em trio até ao cimo da serra onde fizemos um pequeno alto para ligar-mos os frontais, seriam por volta das 5h da tarde, 11h de prova, ajudada pelo nevoeiro a noite caia rapidamente. Juntaram-se a nós mais dois companheiros que também ligaram os frontais e a progressão continuou em quinteto. Já noite escura juntou-se ainda a nós um cão, o que fazia um cão sozinho no meio da serra numa noite de nevoeiro? perdido talvez, acompanhou-nos até encontrar outras pessoas (da organização) e lá escolheu ficar com elas, tinham muito melhor aspecto do que aqueles 5.
Última descida perigosa e em escorrega até ao posto de abastecimento do km 62.
Tinha havido uns comentários entre nós que talvez cancelassem a prova neste abastecimento devido ao nevoeiro, já tinham participado em provas canceladas devido a condições parecidas. Confesso que iria ficar um pouco chateado se chegasse ao abastecimento e me dissessem que a prova estava cancelada. Não aconteceu, no entanto não continuei a prova e fiquei por este abastecimento.
Cheguei, tirei o corta-vento e a mochila e fiz-me à canja. Desembrulhei o telemóvel e tentei mandar o sms da praxe, não consegui, os dedos não tinham sensibilidade, enviei em vez disso um "toque", para dizer que estava a caminho.
Comecei a aperceber-me de vários companheiros que tinham desistido, meia-dúzia, inclusive um que estava embrulhado na manta térmica, esperavam transporte que os levasse à meta. Mexeu comigo e lembrei-me do sucedido numa prova em Espanha (Cavalls del Vent) em que uma companheira sucumbiu ao frio.
Abasteci a mochila de água, comia umas batatas fritas e ia bebendo a uma canja quentinha que me soube divinamente bem. Entretanto o telefone toca, a conversa da elevada percentagem de atletas que já desistiram, do tempo frio, das condições... percebi que havia alguma preocupação do outro lado.
-Queres que desista? - Na verdade quando formulei a pergunta é porque já tinha desistido...
-?- Silêncio do outro lado. Voltei a perguntar, penso talvez que queria uma segunda opinião acerca do que inconscientemente me atormentava o espírito. A segunda opinião veio em forma de pergunta:
-Estás a divertir-te?
-Não, já não estou.- E era, estava com frio, saturado de chuva e de lama, de pisos escorregadios e perigosos. Não me estava a divertir e a corrida deve ser isso: diversão.
-Então?
-Ok, então vou ficar por aqui.
Acabei a canja, informei a organização da minha desistência, ainda bebi dois cafés quentinhos e vi partir o grupeto, depois apanhei boleia até à meta, onde estava a Ana à minha espera.
Entre a canja o café e umas conversas, ainda tive tempo para hesitar a desistência, mas a razão agora já falava e aliada ao frio que sentia a desistência fazia sentido apesar de me sentir desconfortável com isso, e ainda sinto, agora à distância reconheço que foi uma opção sensata. O grupeto ainda demorou cerca de 5h a chegar à meta e embora tenha a sensação que fisicamente estaria em condições para acompanhar o grupo, não sei como iria conseguir ultrapassar o frio. A verdade é esta: estou bem e pronto para outra e é isso que importa. Para o ano haverá mais UTAX e a mim só me resta estar presente na partida e acabar aquilo...
Desta vez fui destruído pelo trilho, para o ano vamos ver como será...