domingo, 23 de julho de 2017

(2) OMD K70+

O dia da prova começou cedo. A noite foi curta e mal dormida. Já não me lembro muito bem como sai de casa, mas lembro que estive a preparar e a rever a preparação do equipamento até tarde. Aquele nervoso miudinho a comandar. Sabia a dada altura que os atletas do K160+ já andavam pela serra e os do K100+ estariam a sair. Eu preparei a mochila e os alimentos. Preparei também uma possibilidade de abastecimento para a Torre. As horas iam passando e o descanso a ser adiado. Quando finalmente cheguei à cama o sono não quis nada comigo. Mas lá me deixei dormir e lá acordei ao som do despertador, que raramente uso.
A viagem para Seia correu bem, pelo caminho um telefonema de casa: já tinham acordado e estavam a chamar por mim. É uma sensação inexprimível, fantástica. Lembrei-me também que não tinha posto a manta de sobrevivência na mochila e que fazia parte do equipamento obrigatório. Chegamos folgados no tempo para ainda ir beber um café. Depois os últimos preparativos: levantar dorsais, besuntar com protector solar, ajustar o equipamento porque a corrida vai começar.
Já na zona da partida, a poucos segundos de começar, uma pausa no tempo para chamar e cumprimentar o Gomes. Já não o via há 20 anos. Reconheci-o logo. Ele demorou um pouco a reconhecer-me.

Partimos pela hora prevista, os primeiros quilómetros são para aquecer.

Um abastecimento cedo, muito bom, inopinado e não oficial, oferecido pela Casas do Pastor, na Póvoa Velha. Tive oportunidade de beber um café e de comer uns bolinhos e de conversar com aquelas pessoas muito simpáticas e hospitaleiras e de ouvir o Hugo a pedir para me despachar que ainda faltava bastantes quilómetros. Eu ficava ali mais uns tempos mas tive que me pôr ao caminho que era de longe.

Nesta parte do percurso uma nota para o Hugo sobre a resistência mental (eu às vezes penso que percebo muito disto e mando bitatites), isto devido ao comentário de um companheiro que "estava a poupar as forças para as subidas finais": é muito perigoso pensar assim! Neste momento e apesar de ainda estar fresco, não vou a poupar nada, vou a fazer a minha corrida, vou no meu máximo, só não estou na frente da corrida porque efectivamente não tenho "pedalada" para acompanhar os tipos que nos primeiros 100 metros dão logo 500 de avanço. Pensar assim, na poupança das forças, é a maneira mais rápida que um tipo tem de desistir desta prova. Parecendo que não este companheiro já levava uns 50 kms na "cabeça", apesar de levar só uma meia dúzia nas "pernas". Há quem diga que fazer ultras é 10% físico e 90% mental, encontro esta relação de percentagem em muitos casos do desporto, não acredito nesta relação mas o certo é que quando a "cabeça" não quer as "pernas" não dão nem mais um passo...

E lá fomos avançando, pacito a pacito, até ao Sabugueiro e depois do Sabugueiro até ao Vale do Rossim. Sempre dentro do tempo previsto e sem dificuldades acrescidas. Agora é que se ia iniciar a verdadeira prova. Vale do Rossim - Torre seria a primeira grande dificuldade do dia. O calor já me vinha a atormentar quase desde a partida, mas esta é a altura do dia mais quente. Para complicar vamos passar uma zona que não tem sombras, durante bastante tempo não vamos ter abastecimentos, isto quer dizer que os cerca de litro e meio de líquidos que eu levo tem de durar para umas boas horas. Serão uns 17 km e cerca de 933 m de desnível positivo, mais 473 m de desnível negativo. Somando o calor, a altitude e o sol a queimar, estão reunidas as condições para a coisa correr mal. O incentivo seria chegar à Torre e ter uma grande equipa de apoio à espera.

Apesar da dificuldade esperada que foi fazer esta travessia, esta zona é de elevada beleza. Nós passamos pelo curral do Martins e descemos à Nave da Mestra pela fenda da rocha. Este local pede sempre um descanso, um abrir de farnel e comer sem restrições dietéticas. Mas claro, a ocasião não era propícia a isso. Tudo o que fiz foi refrescar-me na ribeira cristalina que lá passa.
Deixo aqui um bom trilho para se passar um excelente dia com amigos, além do Curral do Martins e da Nave da Mestra ainda se passa pela famosa Lagoa dos Conchos, este trilho começa e acaba na Lagoa Comprida. Para que não haja surpresas desagradáveis é sempre bom consultar o tempo aqui no Vitor Baia Meteo e acreditar no que lá está escrito.

Como esperava, fiquei sem água, mas  lá consegui chegar à Torre sem grande sofrimento. Na Torre esperava a melhor equipa de apoio do mundo e arredores, com beijos e abraços e uma felicidade tão grande de me verem que me senti o Rei daquelas terras. Também tinham pepsi fresca, piza, aletria e mais coisas boas que comi com muita satisfação, após ter ido "dar" o número ao controlo no posto da GNR.

(Cont.)

domingo, 16 de julho de 2017

(1) OMD K70+

A pedido, aqui fica o registo da minha participação na prova K70+ do Oh Meu Deus 2017.

A minha presença na prova foi oferecida pelo Hugo. Ele queria ir à prova de 40km, e eu incentivei a ir logo à de 70km. Ele inscreveu-se e a organização ofereceu-lhe um voucher para mais uma inscrição que me deu a mim. Não queria que eu me ficasse a rir do sofrimento dele...

Preparei a prova o melhor possível, que na verdade foi muito mau. Sem muito tempo para corridas, nem treinos, programei um plano com corrida duas vezes por semana e mesmo assim não segui o plano de treino. 

Estudei bem a prova e fiz um plano para a abordar da melhor maneira com a preparação que eu sabia que tinha. Ao fim de tantas décadas de corrida, já percebo bem os sinais que o meu corpo dá e consigo adaptar-me a isso. O Hugo era a primeira vez que se aventurava numa distância tão grande e por isso partilhei o plano com ele.

Foram três dificuldades maiores, que eu conseguia identificar à partida, que íamos passar ao longo da prova. 
* A primeira grande dificuldade seria do Vale do Rossim até à Torre onde calor, a distância entre PAC's e o desnível positivo que íamos apanhar a uma altitude já considerável iriam fazer mossa. Assim teríamos de ter bastante atenção às reservas de água e alimentos (sal, isostar, géis), não podíamos sair do PAC do Vale do Rossim sem estar bem abastecidos, para além disso, nesse PAC só existiam abastecimentos líquidos. 
* A segunda grande dificuldade seria de Loriga até à Lapa dos Dinheiros, onde continuaria o calor, íamos apanhar de novo grande desnível positivo além do cansaço acumulado e de alguma dificuldade em comer que a esta altura da prova podia aparecer. Teríamos de ter, novamente, muita atenção às reservas de água e alimentos que levávamos connosco mas também ao ingerido, era crucial sairmos de Loriga bem alimentados e hidratados, com todo o equipamento bem ajustado e, caso houvesse feridas (bolhas nos pés ou outras que podiam aparecer de alguma queda, por exemplo) teriam de estar bem tratadas.
* Outra grande dificuldade, que seria transversal a toda a prova, era o calor: a previsão era de um dia muito quente com um sol radiante, previsão que se veio a verificar correta, num dia assim a hidratação e a reposição dos níveis de sal e potássio torna-se muito importante. 
* Poderia haver ainda uma outra dificuldade acrescida da Lapa dos Dinheiros até Seia, esta parte do percurso apresentava algum desnível positivo que somado com o cansaço acumulado podiam solicitar algumas complicações mais a nível mental: é a situação de já faltar pouco, mas por outro lado, "esta merda nunca mais acaba". Seriam 10km "na raça", a esta altura já dói tudo, desde a ponta da unha do pé grande até à ponta do cabelo. A solução é seguir em frente, já que chegamos aqui, chegamos também à meta. 

(Cont.)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Pronto para o próximo desafio!

Ontem fiz o último treino da fase de recuperação. Passadas três semanas do K70+ estou pronto para o próximo desafio: 42.
Vai ser épico!

sábado, 4 de março de 2017

Já vou correndo qualquer coisinha

Ao poucos regresso à corrida como quem regressa a um lugar mágico. O sorriso que levo é cheio de felicidade, que dirão as pessoas ao verem-me correr com aquele sorriso parvo estampado na cara?
«Se algum dia alguém deixasse de me achar ridículo, eu entristecia ao conhecer-me, por esse sinal objectivo, em decadência mental.» Fernando Pessoa 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Qual é o objectivo de correr?

A long time ago in a galaxy far far away eu perguntei e respondi num certo maratona: Qual é o objectivo de correr? Nenhum, apenas quero continuar a correr. Não tenho outra finalidade além da de continuar a correr enquanto puder. Corro para viver. Não posso viver de outra maneira.
Agora chega a hora de analisar a dita pergunta e a resposta plural. E chega a hora porque o correr é muito pouco e o viver é de outra maneira, mais intenso. O querer continua com a mesma força, a intensidade da vida é que se alterou e o dia continua com 24 horas. 
A corrida estava a correr com o sono, havia duas hipóteses: ou não corria, ou não dormia. No princípio optei pela segunda, mas o facto de não dormir tinha outras repercussões: a presença não era total. Perdia eu. Cheguei à conclusão que após uma certa idade, dormir é obrigatório! A corrida ficou para trás: perdia eu? Nada! Faz-me falta, claro que faz, quero continuar a correr, claro que quero, mas a presença na vida, na minha e em outras, enche-me a alma.
Interessante: ao estar presente em outras vidas a minha presença na minha própria vida tem-se revelado mais presente. É isso. Eu estou-me mais presente, assim como um presente que dou todos os dias a mim mesmo. Uns sorrisos que se guardam no coração.
Mas como posso continuar a correr sem deixar de dormir?
Tenho que arranjar uma coisa destas: