quinta-feira, 24 de maio de 2012

(1) ULTRA-TRAIL DA SERRA DE SÃO MAMEDE

«Só faltam 3 quilómetros e esta é a última subida, depois é sempre a descer até à meta!» E lá me "amandei" com gosto para a última subida, não gostei foi de ter virado costas para a cidade de Portalegre, pelo meu sentido de orientação estava a afastar-me e não a aproximar-me da meta. Passo económico e chego ao cimo da rampa, onde um tipo andava a treinar motocross, corro um pouco a direito e nova rampa, desta feita não muito longa, nem sei se poderia ser considerada rampa ou subida em comparação ao que já tinha passado, e eis que começo a descer... «Espera aí, o que é aquilo?» nova subida, dura,  então aquela não era a última? Parece que não, bem, o que tem de ser tem muita força e «vamos lá, catano!», "amandei-me" para a nova subida com garras. Nesta altura já ia a aguentar-me como podia, as reservas há muito que tinham sido gastas, as forças não passavam de uma recordação boa que tinha, agora era na raça que continuava a deslocar-me: "a direcção é mais importante que a velocidade" e era nisto que ia pensando enquanto pedia aos meus joelhos mais um pouco. Ao cimo da subida encontrei umas fãs animadas e ruidosas, como agradecimento do apoio ensaiei uma corrida até ao topo da "curva da morte", mereci uns aplausos e um "like" nas minhas meias personalizadas, cheias de magia e vibrações positivas que me ajudaram a percorrer estes trilhos e os tornaram muito mais fáceis.
Agora já descia de novo em direcção a Portalegre, mais uma viragem à esquerda e de novo a informação da quilometragem que faltava: «Faltam 3 quilómetros!»
A corrida continuou por entre bairros e ruas alcatroadas até que ao fim de uns 3 quilómetros vejo no chão pintado a branco uma seta com a indicação «Falta 1 Km», e eu pensei: «Está quase, só falta 1 quilómetro.» Pensei mal, sei agora que a seta indicava o sítio para onde ficaria a faltar o tal último quilómetro, os meios de medição ficaram um pouco avariados nesta última parte. Sigo monte abaixo, um muro para saltar quando as forças já não existem e por sorte não me espalhei, e até à meta no quilómetro mais comprido das fitas métricas e cumulativamente (a meu ver, claro) o quilómetro mais mal marcado de todo o UTSM. Depois de três ou quatro hesitações neste último percurso lá chego ao estádio, «agora é que só faltam 400 metros», e vou já saboreando esta vitória, emoção à flor-da-pele, consegui completar 100 km, estes por montanha num sobe e desce duro. Agradeço aos meus joelhos, a todas as outras articulações, às pernas e a todos os outros músculos. Faltam 200 metros. Diverti-me, suei, transpirei; tenho dores no corpo todo, sinto os pés feridos e as costas a arder das chagas da mochila. Olho para o céu, a lua nova ainda não aparece, agradeço ao universo ter-me proporcionado este momento. Nesta altura, mais que em qualquer outra, percebo porque me meto nisto, o sofrimento é passageiro, este orgulho que sinto, esta vanglória é mais que compensador. Recta da meta, faltam 100 metros, tiro o lenço para te sentir. Aplaudem, chamam pelo meu nome. Pórtico da meta. Levanto os braços: consegui! Não é que alguma vez tivesse duvidado, mas numa prova destas nunca se sabe e agora é real: Cheguei, está feito!
(Continua)