sábado, 26 de maio de 2012

(2) ULTRA-TRAIL DA SERRA DE SÃO MAMEDE

Isto de correr 100 Km numa montanha, não é coisa que comece no "tiro" de partida, começa sempre muito tempo antes com o desejo da corrida e de nos pôr-nos à prova numa corrida de ultra-resistência, pelo meio tem as corridas designadas por treino onde vamos aumentando a nossa resistência física e acima de tudo mental. Penso que esta é a minha maior força: a resistência mental. Apesar do nervosismo que aparece quando estou a apertar as sapatilhas com nós duplos, a espalhar vaselina nas partes mais intimas para as queimaduras de fricção não aparecerem (pelo menos a maior parte delas), tenho a confiança que se nada de anormal acontecer, uma queda ou uma lesão, vou chegar ao final vitorioso. Antes das 2h da manhã daquele sábado 19, o nervosismo aliado ao facto de normalmente não dormir antes dessa hora, não me tinha deixado "pregar olho" e às 2h30 já estava levantado ao som da chuva que caía lá fora. Preparei-me e lá fui para o estádio ter com aqueles tipos todos que estavam dispostos a partir às 4h daquela manhã chuvosa para correrem durante muitas horas seguidas perfazendo a distância anunciada de 100Km pelo meio da Montanha de São Mamede. 
Lá encontrei alguns companheiros já conhecidos. O António, a Isabel e a Vitória que já os tinha encontrado no jantar de véspera. O Joaquim, que estava mais nervoso que eu. O Melo, que como veio dos Açores já tinha uma aventura aérea para contar. O Zé Ramos, companheiro de uma meia-dúzia de treinos (não dá para mais que ele está num outro nível de competição - dá para o acompanhar quando ele faz uns treinos mais lentos e de recuperação, eu aproveito e faço treinos mais rápidos). E mais umas caras que reconhecia dos trilhos do Almourol.
Zona de verificação de material, que dá ares de zona de embarque, com os familiares a despedirem-se dos ultras de uma maneira que parece a despedida de um batalhão prestes a embarcar para uma zona de guerra. Amontoado de gente, com mochilas e frontais, prontos a enfrentar esta dura empreitada, confiantes, nervosos, apreensivos com o tempo que se faz sentir.
Foto de Isabel Almeida
4h da manhã. Partimos, com a chuva a fazer a sua aparência e os frontais a iluminar a estrada. Mesmo àquela hora da manhã, havia pessoas (gente maluca) a ver estes tipos a correr. Noite, com chuva e frio, os primeiros quilómetros são de aquecimento, por entre a chuva e o nevoeiro prossigo devagar, até porque o meu frontal, um baratinho da Berg, não tem luz de nevoeiro. No entanto, fez bem a sua função, ainda tive receio que não aguentasse a chuva, pelo preço que foi..., mas o frontal nunca mostrou fraqueza e cumpriu sempre bem a sua parte, iluminando bem e sempre muito confortável. 
O dia foi amanhecendo, o nevoeiro ia-se mantendo dando um ar sinistro ao acontecimento. Nisto passaram 3h20 de corrida e... perdi-me. Não foi assim perder de não saber o norte, é mesmo só para aqui dizer que me perdi, porque já me afastei mais do trilho noutras ocasiões em que tive algumas coisas para fazer... (as reticências é para não ter que dizer que coisas foram... levo sempre papel-higiénico, é leve e pode fazer muita falta...). Enfim, perdi-me mais pelo facto de estar a seguir os companheiros da frente em vez de ir atento às fitas sinalizadoras, não foi grave, foram uns 20 metros na zona imediatamente antes da subida até às antenas, mas foi o suficiente para abrir a pestana e estar mais atento ao percurso daí para a frente. Ainda houve algumas hesitações, se estaria no caminho certo, mas foi mais por causa do nevoeiro intenso do que da sinalização do percurso. Na verdade só viria a perder-me outra vez (no mesmo nível de perdido, 10 metros), quando já levava mais de 13h de corrida e já ter passado o PAC9. Foram só uns 10 metros, mas foi um novo aviso para abrir a pestana e aumentar a atenção, que com o cansaço acumulado, já não era a melhor. Passei inclusive uma seta no chão para virar à esquerda. Ia completamente sozinho e comecei a gritar comigo: «Estás cego? No que é que ias a pensar? Como é que não viste isto? Depois diz que o percurso está mal marcado...» Foi algo do género, se alguém me viu ali, sozinho e a falar alto, deve ter pensado: "já deu o tilt." Desta vez fiz um check-up: "Estás bem Ricardo? Tens te hidratado? Alimentado? Está tudo ok, mas se calhar está na altura de mais um gel." E lá consumi mais um gel, numa altura em que comecei mais uma íngreme subida que parecia não ter fim. A meio da subida um casal de Espanhóis esperavam os atletas para lhes transmitir ânimo, ainda me ofereceram água e umas barras energéticas. Agradeci, mas não necessitava. «Umas pernas novas?» pergunta-me o simpático "hermano". «Isso é que era!!!» respondi. Ainda dá para rir, despedi-me, agradeci novamente a simpatia e lá continuei a subida.
«Gosto muito de vocês, só disse aquilo para fazer conversa. Vá, prossigam que estão a ir muito bem. Adoro-vos!» Falei eu com as minhas pernas, não tivessem elas ficado ofendidas com a conversa com o casal espanhol. Aprendi esta técnica, de ir falando com as diversas partes do corpo, no livro "Um desejo chamado 100Kms", de Manuel Martins. E dá resultado, pode parecer um pouco insano ir a correr e a falar sozinho, mas comigo resulta, sinto-me bem e as pernas agradecem.
A minha corrida teve três partes distintas: a primeira até ao Castelo de Marvão, aos 58Kms onde eu queria chegar o mais rápido possível, no entanto sem nunca forçar o andamento; a segunda, a partir daí e até, mais ou menos, ao quilómetro 80, onde ia ao sabor do vento e da maré; e a terceira, desde o quilómetros 80 até à meta, onde a expressão "aguenta-te sempre" começou a fazer-se sentir em toda a sua plenitude de sofrimento e superação.
Foto de Marta Carinhas
Depois de ter chegado à meta e de ter sido recebido carinhosamente, fui comer umas batatas fritas, beber mais uma coca-cola e de seguida desloquei-me até às massagens (maravilhoso, agradeço Sr. fisioterapeuta, as minhas pernas ficaram logo com outro ânimo e no Domingo já estavam quase novas, só os joelhos é que ainda nem por isso), após as massagens comecei a sentir frio e a tremer, tomei banho e agasalhei-me. Fiquei por ali à espera dos atletas e da Ana, que teve de fazer 300Kms a mais (de carro). Não  podia ficar parado muito tempo no mesmo sítio, as pernas não gostavam disso, então, entre a mesa das batatas fritas (comi muitas, muitas mesmo, com a desculpa do sal e tal é a desidratação...), a meta (onde ia aplaudindo alguns companheiros que chegavam) e a barraquinha dos cafés (onde eu bebi uns 3 e podia ver e aplaudir os atletas que passavam para os últimos 400m), passei as horas seguintes.
Havia três ultras ainda em prova que eu fazia questão de ver chegar à meta. O António, o Joaquim e o Octávio. Com alguma tristeza da minha parte, só vi um chegar. São coisas que acontecem e que nos fogem do controlo, paciência.
De novo junto à barraquinha (era um atrelado) dos cafés, esperava pelo António que devia estar mesmo a chegar... e ele chegou, eu é que não o vi passar, quando voltei às batatas fritas por estranhar a demora, dei com o António... já tinha cortado a meta. Fiquei triste por não ter visto, mas o importante é que chegou bem.
Passado pouco tempo, que não sei quantificar, vou ao secretariado para tentar calcular quanto tempo mais demoraria o Joaquim. As informações não eram animadoras: no PAC8 passou há mais de 5h e ainda não chegou ao PAC9... Não pode ser, é estranho, algo se passou... A menina simpática do secretariado telefona para o PAC9 à procura do dorsal X: «Não, ainda não passou.» resposta do PAC9. Estranho, muito estranho, vou buscar o telemóvel e dirijo-me novamente ao secretariado para confirmar se o número de telefone que tenho do Joaquim é o que ele deixou na organização. No preciso momento em que ligam do PAC9 a dar mais informações sobre o dorsal X.
(Continua)