O parto visto por mim


“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”
Carlos Drummond de Andrade


Olá a todos. O Leonardo nasceu às 4h43m do dia 30 de Janeiro de 2015 no Centro Hospitalar Cova da Beira.

Pouco passavam das 3h30 do dia 29 de Janeiro quando as “águas” rebentaram. O protocolo, neste caso, manda ir para o hospital até duas horas depois da ocorrência para monitorizar o feto. Foi o que fizemos. Não foi o que tínhamos previsto e preparado durante a gravidez, mas o que tem de ser tem muita força e se é para ser assim, então que seja. Fizemos a mala, calmamente conversamos e convencemo-nos que era agora, fomos par o carro estacionado na garagem e desfrutamos da viagem pela Covilhã, sem trânsito, até ao hospital.
Algumas pessoas nas urgências. A Ana foi “fazer o registo” que consiste em monitorizar as contrações, os movimentos e o coração do feto: tudo de bem com o bebé, mas sem grandes contrações. Internada na obstetrícia. A auxiliar que nos levou até ao serviço lembrava-se do nascimento da Camila (há 13 anos atrás), tinha sido ela a auxiliar de serviço. Excelente memória (a longo prazo, certo Camila?). Eu e a Camila ficámos na porta do serviço e fomos recambiados para casa.
As coisas ficam logo todas diferentes, a casa muda a essência, os gatos olham-nos com aquele olhar curioso que parece dizer: “explica-me o que está a acontecer” (ou então “dá-me biscoitos”, não consigo perceber bem). Mas dormir, apesar de não ser proibido, foi impossível. Até às 14h andei tipo “barata tonta” sem saber muito bem o que fazer. Às duas fui ter com a Ana ao hospital.
Pelas 17h a Ana já sentia leves contrações, muito espaçadas e a intervalos irregulares. Às 18h30 ainda recebeu visitas, apesar de as contrações começarem a ser mais fortes, porém os intervalos irregulares persistiam. Observada e monitorizado o feto, tudo apontava para “ainda nasce hoje”.
Um pouco antes das 21h fui ao bar comer. A Ana foi tomar duche.
Às 21h as contrações já eram mais intensas, porém continuavam muito irregulares, ora a espaços de 5 minutos, ora a espaços de 3 minutos, ora o intervalo entre o fim de uma e o princípio de outra aproximava-se dos 10 minutos.

A visualização desta fase na gravidez foi sempre feita no espaço do lar, treinamos a melhor cadeira, a melhor maneira de receber cada contração como sendo menos uma. Vimos as aplicações para androide da contagem das contrações (a opção iria ser o meu velhinho relógio-cronómetro, porque houve dificuldades técnicas, nomeadamente em arranjar um dispositivo androide...). Se as contrações fossem irregulares seria sinal de possível falso alarme e o que se faria nesse caso para despistar, seria um banho quente de imersão.
Só para saberem que tinha bem as coisas estudadas (as aulas de preparação para o parto, no Centro de Saúde da Covilhã com a Fisioterapeuta Daniela, foram fundamentais) de maneira a nada sair do controlo. A intenção era ficar em casa e fazer a máxima dilatação e só ir para o hospital próximo da última fase, a da expulsão. Como não sei medir a dilatação do útero (ninguém me quis explicar), tinha que contar com as contrações. O período crítico seria quando estivessem entre os 5 minutos e os 3 minutos entre contrações. A conta seria feita assim: em 10 minutos houve 3 contrações: “é agora, vamos para o hospital”. O carro estaria já pronto: estacionado estrategicamente, com a mala da maternidade e o banco do passageiro ligeiramente inclinado e devagarinho íamos para o hospital.
Nada foi como previsto.

A fase de dilatação ocorreu nos corredores do internamento de obstetrícia do hospital. A Ana sentia-se melhor a andar do que parada, quando tinha contrações eu ajudava numa posição pouco treinada mas que se revelou muito eficaz nesta fase. As minhas piadas deixaram de fazer efeito e começaram a ter efeitos contrários. A partir daqui fiquei o mais calado possível: nada de cantar, muito menos de tentar ser engraçado. O contacto visual era tudo o que a Ana pedia. Alheados do que se passava à volta, não tínhamos a presença da Camila nem dos gatos, mas sentíamo-nos em casa. A enfermeira Elsa ajudou imenso, permitiu e incentivou a Ana para que fizesse a dilatação neste serviço, em vez de irmos para a sala de dilatação a “olhar para o tecto”. Por algumas vezes a Ana teve que se deitar para registar os movimentos fetais. Começaram a sentir-se progressos: o útero dilatou até aos 7 centímetros. A partir daqui é com a equipa parteira. Transferidos para o bloco de partos passava já das 22h30.

Alegremente recebidos e instalados numa sala de partos para continuar a dilatação e passar à segunda fase. O monitor que registava o que se passava no útero era diferente dos anteriores, aparelho oferecido pela missão sorriso do continente, a visualização era feita totalmente num ecrã e não em papel como até aqui. Houve mudança de turno às 23h e chegaram duas enfermeiras prontas para fazer o parto. Ouvi o passar do testemunho, entre um monte de palavreado técnico: …não é alérgica…, …teste negativo…, sangue O+...; o que me chamou a atenção: ela controla bem a respiração, o bebé deve nascer ainda hoje.

E passou-se, passou-se a meia-noite e nada de Leonardo cá fora, o bebé ainda estava muito subido (não faço a mínima ideia do que seja, mas percebo o resultado). A partir daqui os minutos passam como se fossem horas e as horas como se fosse minutos. A cada contração o sofrimento da mãe aumenta, a dor é cada vez mais forte, a impotência de não poder fazer nada consome-me por dentro. O medo que alguma coisa corra mal. Os olhos postos no ecrã a controlar o bebé. Não estava em sofrimento. Antecipava as contrações, quer pelo ecrã quer pelos movimentos fetais aparentes. Eu ajudava da melhor maneira, que era ficar quieto e calado só apertando a mão quando isso fosse solicitado. As massagens eram rejeitadas. A única coisa que fazia, mesmo se a Ana não gostasse, era a de reposicionar os sensores do registo cardíaco do puto, necessitava de ver aquilo no ecrã, detestava o barulho sonoro que o aparelho emitia quando havia perda de sinal.
A avaliação da enfermeira Graça indicava que estava tudo na mesma, o bebé continua muito subido. Verificaram se não seria a bexiga da Ana cheia a impedir que o bebé descesse: não era, bexiga vazia. O médico de serviço, Humberto, observa a Ana. Pai fora da sala (não percebo porquê, mas saí). A avaliação confirma a da enfermeira. É ainda cedo. Agora a Ana tem indicações para se tiver vontade de fazer força o fazer livremente. Tentamos a posição de cócoras para receber a contração e fazer força, mas não era a mais confortável para a Ana. Deitada de costas também não era confortável. Deitada de lado, alterando por vezes o lado, recebia as contrações e fazia força no sítio certo. Eu confirmava visualmente que estava a fazer força no sítio certo. A expressão facial de dor, os dentes cerrados, a tensão em todo o corpo deixavam-me receoso, a Ana diz-me que eu comecei a ter no olhar o pânico que me percorria. Pânico de não conseguir fazer nada, de não haver nada para eu fazer, de ver a luta desta guerreira e manter a calma aparente. Tudo o que podia fazer: segurar a mão, assegurar-me que o sensor ficava no sítio e conseguia ouvir os batimentos do feto. Os minutos continuam a passar lentamente, a angústia preenche todo os espaço que há em mim. Por vezes a Ana chega a ter duas contrações seguidas de mais de 2 minutos cada. Por vezes os espaços entre as contrações chegam quase aos 10 minutos. A Ana aproveita para descansar, relaxa completamente e consegue dormitar. O útero começa a tremer, vem ai mais uma, a Ana toda ela treme, o cenário de dor repete-se. Menos uma.
Por duas vezes o Rosty fez uma visita, tenho a certeza que o vi passear pela sala…
Num dos intervalos entre contrações vou beber um café, a enfermeira Helena fica com a Ana. Venho com o café e com pastilhas. Sei lá, achei que a Ana talvez gostasse de uma.
«Leva-me para casa.», «Levo, vamos embora!»; eu já estava por tudo.
O tempo passa e o cenário não se altera, o tempo que deixa de ser preciso e a memória pode nos chegar agora com alterações. Mas já passava das 4h quando a enfermeira Graça faz nova avaliação e o cenário não se tinha alterado muito desde as 23h. “Desceu já um pouco”, mas mais do que alguma alteração penso que a enfermeira queria transmitir um pouco de esperança e ânimo. Se continuar a não haver alterações o que se pode fazer? A ocitocina ajuda? Não é certo, ajudaria a que as contrações fossem mais regulares, mas não se pode garantir que acelerasse o que quer que fosse. Outros procedimentos (cesariana) tinham de ser de indicação médica. O monitor mostra que o feto não está em sofrimento.
Nova avaliação médica. A hipótese cesariana ponderada devido ao sofrimento da mãe. Não ouvi o que a equipa disse na observação, porque como foi feita pelo médico o pai vai para o corredor. Fez-me lembrar os combates de boxing: “Segundos fora!”
Acção! Vamos passar para a sala de partos, vamos fazer a observação na sala de partos e depois tomamos a decisão.

Cortejo até à sala de partos. A Ana hesita em entrar e tem uma contração mesmo à porta da sala. Depois da contração é preciso ser rápida para subir para a cama de partos. A Ana olha para mim, eu tento incentivar: “vamos lá, é agora.” Sobe as escadas e posiciona-se. Os acontecimentos precipitam-se, eu fico do lado direito dela, a enfermeira Helena observa, o médico fica a ver, a enfermeira pede à Ana para fazer força constante na contração, a Ana vai buscar forças não sei onde e faz o que a enfermeira pede, ajudo a Ana a respirar controladamente e fundo na ausência de contração. A enfermeira e o médico trocam opiniões: “está de direita posterior” ou algo parecido, diz a enfermeira, o médico confirma e parece-me que faz alguma manobra. O meu ângulo de visão não é o melhor. A minha preocupação no momento: “não me vais dizer para esperar lá fora, porque eu não vou.”
Outra contração. A enfermeira torna a pedir à Ana para puxar e fazer força constante. Eu olho para a Ana e peço, só mentalmente porque já me parecia desumano pedir o que quer que seja a ela, nem sei como ainda tinha forças. A Ana faz forças, a enfermeira Graça ajuda empurrando, eu seguro a mão da Ana e olho para ela.
“Não faça força agora.”, diz a enfermeira Helena. Eu percebo que há algo de errado, já vejo a cabeça do bebé fora, a enfermeira pega numa tesoura, percebo o que se passa e peço à Ana: “Não faças força mesmo que tenhas vontade.” Era injusto, eu sabia, pedir qualquer esforço a mais a esta super-guerreira, mas era o último esforço. “Faça força agora”. O bebé dá o primeiro choro. Está bem, mesmo assim a enfermeira Graça leva-o para o aspirar. Vou vê-lo de mais perto. Volto logo para junto da super-mamã. “Vai ver o teu filho!” Quase como se fosse uma ordem (foi mesmo). Fui para junto do Leonardo, vê-lo pesar: 3,370 Kg. A enfermeira ainda me diz (meio a gozar) “esteja descansado que eu não o deixo cair.” Fui para junto da Ana, a enfermeira trouxe o bebé para a Ana. Contacto pele com pele. Depois com a ajuda da enfermeira começou a mamar. A minha vez de pegar ao colo chegou, já depois da enfermeira Helena ter suturado a Ana e enquanto faziam a expulsão da placenta (só para que saibam, é a terceira fase do parto chamada dequitação). Tinha pensado que talvez nesta altura a emoção tomasse conta e eu vertesse umas lágrimas, pelo que me lembro, não saiu nada, provavelmente a adrenalina que me corria pelas veias era muita e impediu isso na altura.

A Ana foi passada para a cama e fomos para uma sala de recobro. A Ana já estava como se nada tivesse passado. Na verdade tinha passado mais de 26 horas desde que acordou, umas 12 horas desde que começou com as contrações do parto (e o segundo filho é sempre mais fácil que o primeiro, não é?), umas incríveis 6 horas de fortes e dolorosas contrações, sempre com uma postura inquebrantável perante o sofrimento. Recebendo estoicamente a dor como fazendo parte de um processo de renascimento que surge com o parto e que nos torna mais fortes. Não houve gritos de desespero, somente coragem. Esta mulher é uma super-guerreira.
Acordado também há umas 26 horas sentia-me fresco. Primeiro telefonema a anunciar o nascimento do irmão, depois do afilhado, do sobrinho, do neto. Umas mensagens com a mesma boa nova. O tempo passa e Ana e Leonardo sobem para a obstetrícia.

Recambiado novamente para casa. Mais tempo para reflectir no que se passou, no carro saem-me lágrimas de emoção, lentamente vou-me apercebendo que já aconteceu. Em casa só os gatos à minha espera. Não me deixam dormir profundamente, talvez queiram saber onde está a Ana.
- A Ana já volta e traz o Leonardo com ela. Está bem?
- Queríamos que já estivesse aqui novamente.
- Mas não pode ser, “ta” bem?
- Que remédio.
- Atão vá, deixem-me dormir.


Ricardo M. S. Baptista
Covilhã, 1 de Fevereiro de 2015