quinta-feira, 24 de junho de 2010

100Km de Biel/Bienne (3)

Kirchberg. Chegamos ao km 56. Aqui a organização fazia chegar sacos de corredores que assim o desejassem. Havia muitos apoiantes que se deslocaram até aqui. Tempo para um pequeno alto. Troquei de camisola, por nenhuma razão especial. Besuntei-me de novo com vaselina nas zonas habituais, de maior fricção, e dando especial atenção à zona que acusava já uma pequena assadura. Troquei as pilhas do GPS. Vesti umas coxas elásticas, nunca tinha corrido com elas, só as usei para recuperação após as corridas mais longas e aí posso dizer que ajuda, elas estavam como que por magia na mochila, achei que era um sinal do além… porque não? Qualquer sinal de desconforto retirava-as. Nunca me foram desconfortáveis, não sei se ajudou alguma coisa, mas voltava a usar.
Estava pronto para partir novamente, entretanto o meu irmão tinha adormecido ali deitado na relva. Deixo-o descansar mais um pouco, afinal ele tinha-se levantado cedo e tinha passado o dia a trabalhar, estava acordado à quase 24 horas. Sento-me na relva e tomo a decisão de partir dali quando tivesse 7 horas de prova, ainda falta uns minutos. Resisto à tentação de me deitar, se adormeço “é o fim da picada”. Ao todo estive parado de 20 a 25 minutos. Aproveito e deixo o frontal na mochila. O dia amanhece. Retomamos a corrida. Logo depois nova separação atleta/ciclista. Fomos informados que ia percorrer separado perto de 20 km, foram só 10.
Sigo por um caminho de terra, um “single trail”, justificação para a separação do atleta e do coach. A corrida na mata, com percursos de terra, é a minha favorita, porém não foi aqui: nesta aventura quase sempre que a corrida se desenvolvia em terra, eu e os meus pés suplicávamos por alcatrão. É que a terra tinha uma espécie de gravilha que não era agradável, além da irregularidade normal destes percursos. Por uns quilómetros o percurso desenrolou-se em terra (da boa, sem gravilha) e no meio de arvoredo cerrado, por causa disso o meu GPS “roubou-me” quase 1Km. A meta agora era reencontrar o meu irmão. Antes de separarmo-nos ele perguntou-me se ia desistir, claro que não, afiancei-lhe. E ele seguiu na sua missão de chegar ao local do reencontro e dormir mais um pouco. Neste percurso passei muitos atletas, no entanto não estava a andar depressa demais, fui sempre num ritmo controlado. Depois de dez quilómetros o reencontro e seguimos de novo em conjunto. Agora o objectivo era chegar aos 90Km para fazer o telefonema e para me irem esperar à meta.
Foi o parcial mais longo. Não digo que foi o que me custou mais porque isto de custar mais ou custar menos é muito relativo em 100 Km. Mas foi o que me deixou mais apreensivo. Sensivelmente do quilómetro 75 ao quilómetro 90 comecei a mijar com muita frequência (desculpem-me o calão, mas a vontade não era de urinar ou mictar… Mictar: parece uma coisa que tem de ser feita com fato e gravata, de preferência sentado para não acertar na tampa. Mijar: pode ser feito em qualquer lado de qualquer maneira). O medo agora era de desidratar. Continuava a transpirar, a urina saia transparente, pelo que não me parecia que estava a entrar num qualquer estado de desidratação ou de hiponatremia. Continuei a beber água sem esperar pela sede. Lembrei-me do que aconteceu ao Fernado A. que teve de abandonar uma prova de 100 km prematuramente. Comecei a procurar sal, lembrei-me dos frutos secos que tinha trazido, mas não tinham sal. Nos abastecimentos ainda dei uns goles numa sopa que o meu irmão me disse que estava salgada, mas pareceu-me intragável e tive receio que me provocasse vómitos. Lambi os braços: salgados. Esperava que isso fosse o suficiente até encontrar algo mais convencional, mas a verdade é que nunca senti sede nem qualquer mau estar, havia só inconveniente de parar de 15 em 15 minutos. E assim como apareceu, desapareceu lá pelo km 90.
Km 90. Altura para telefonar para casa a dizer que daí a uma hora e meia estaria na meta. Queria que estivessem à minha espera.
continua...