sexta-feira, 25 de junho de 2010

100Km de Biel/Bienne (4)

O percurso continuava na sua maioria por terra com muita gravilha e pedras que me castigavam os pés e os tornozelos. Nesta altura em que escrevo (18JUN), uma semana depois da prova, a única mazela que tenho é uma pequena dor na parte de fora do tornozelo direito. Claro que no dia seguinte à corrida a dor era generalizada, mas o que mais me consumia eram as dores nos pés e tornozelos. Fiz também algumas feridas que nunca me incomodaram: uma assadura entre as virilhas, umas pequenas na barriga por causa do cinto de hidratação, e acima do joelho por causa das coxas elásticas. Tirando isso nada mais. Os pés ficaram doridos mas sem nenhuma bolha, acho que isso se deve à excelência das meias e também das sapatilhas que usei. Apesar de não me terem livrado das dores dos pés e tornozelos, considero que são muito boas, tendo em atenção a diferença de preços entre as que usei as que teriam sido mais indicadas para ali. E não é garantido que outras sapatilhas seis vezes mais caras me fizessem chegar ao fim sem essas dores.
Penúltimo abastecimento. «Paulo, vamos embora, quero fazer abaixo das 13h30m.» “Respiro fundo e lembro-me da força que guardo dentro do meu corpo e espero que ela ouça.” E começo um contra-relógio, a única vez na prova em que me preocupei com o tempo final.
Último abastecimento: o mais rápido de todos.
Último quilómetro: a foto mais aguardada:
“É na busca mágica do último quilómetro que todos nós corremos.”
Vamos para a meta. A corrida revigorante dos últimos quilómetros deixaram-me com folga mais que suficiente para acabar abaixo das 13h30m. Quero saborear este quilómetro. Uma filmagem. A conversa final da prova:
- Gostaste? – Perguntei ao meu irmão.
- Gostei, para o ano vou eu correr.
Absorveu toda a emoção da distância.
-Alguma vez pensaste desistir? – Pergunta ele.
- Não, e tu? – Não foi fácil para ele, não estava habituado à bicicleta, e que bicicleta…
- Epá, aos 50 km já estava fartinho. Dos 75 aos 90 foi quando te custou mais, não foi?
- Não consigo dizer quais os quilómetros que me custaram mais.
O último quilómetro está a chegar ao fim. Ao fundo o meu irmão Pedro já acenava. «Já aí vem, conseguiu!». A Lorena nada admirada: «Eu sabia que conseguias. Consegues sempre!» diz isto como se tivesse sido uma corrida à volta da marina de Angra.
Ainda uma recta para ser aplaudido. Provavelmente muitos familiares e amigos de atletas que também estão quase a chegar. Eu também aplaudo: a prova, a organização, os apoiantes. Levanto as mãos em sinal de vitória. O locutor diz o meu nome: Ricardo Baptista, mais algumas palavras em alemão que eu não entendi. Apesar do cansaço, apesar de algumas dores: adorei, foi um espectáculo. Se pudesse se a vida permitisse: para o ano voltava a fazê-los. Uma medalha que o meu irmão Pedro desembrulha e me põe ao pescoço. Ainda tenho de ir buscar o diploma e a t-shirt que diz finalista. Passo pelos balneários e não resisto a um banho de água fria. Regresso a casa para descansar um pouco.
À noite o jantar é no Centro Português de Neuchâtel. Um bife à café paris. Muito bem servido embora que demorado. Enquanto espero pelo jantar vai passando pela memória os 100 km que tinha acabado de fazer. Uma experiência que fica marcada na memória. O Paulo está com vontade de para o ano ser ele a correr. O andar não era o melhor, era o possível. Parecia que tinha alguma deficiência. A levantar e a descer escadas era a pior altura: Ai, ai, ai, ai.
A medalha: oferecia ao meu irmão, acho que ele a mereceu. O facto de não estar habituado a andar de bicicleta e de me ter acompanhado com uma coisa daquelas. Também tinha dores.
Nos dias que seguiram sentia-me um herói. Eu sei que não sou: qualquer um é capaz de uma coisa destas. Sinto-me orgulhoso pelo meu feito. Gosto de ver a reacção das pessoas ao saberem, “100 km?”, e eu cá para mim:
- Até que nem foi muito difícil!